sábado, 31 de outubro de 2026

OS VÁRIOS CAVALEIROS DO APOCALIPSE NEOLIBERAL

 



GEOPOLÍTICA, ECONOMIA & NEOLIBERALISMO

OS VÁRIOS CAVALEIROS DO APOCALIPSE NEOLIBERAL

Como a utopia do mercado livre condena o Brasil ao papel de 'Fazendão' do mundo e por que o programa de Flávio Bolsonaro representa o réquiem definitivo da nossa soberania.

Autor: Prof. Daniel Marinho | Data: outubro de 2026 | Tempo de leitura: 15 min

Tema: O mito do neoliberalismo, a precarização da economia brasileira e o plano 'Tesouraço” de Flávio Bolsonaro.

 

“O neoliberalismo não é a ausência do Estado, mas a utilização de seu aparelho coercitivo para garantir o império do capital contra a vida humana.”

— Eduardo Galeano, As Veias Abertas da América Latina

I. A Grande Ilusão: O Neoliberalismo como Religião Fundamentalista e Colonial

“Peraí” minha gente! Antes de começarmos nosso parlatório aqui. Importante lembrar, e é para isso que existe História que, uma das primeiras medidas nazistas foi a criação de listas de comércios de origem judaica que deveriam ser assinalados e boicotados na Alemanha da década de 30. Bons entendedores? E ainda tem uma conversinha que tenta convencer a todos, que é melhor mesmo que os trabalhadores negociem com os patrões. Pois bem, calma povo brasileiro!

Eita, e atenção! Contra todo esse movimento de trabalhadores serem demitidos por optarem pelo lado vermelho da força, presta atenção direitinho que a proibição de tal medida já é lei desde 1995. A Lei nº 9.029/1995, também conhecida como Lei Antidiscriminação no Trabalho, regula em seu artigo primeiro a proibição expressa de qualquer prática discriminatória ou limitativa no acesso ou na manutenção da relação de trabalho fundada em opinião política, raça, cor, sexo, religião, origem, idade ou estado civil. Sendo aos “patrões” as cabíveis “sansões” de reintegração do emprego e ressarcimento em dobro. Eita gota que quando avisaram isso para a galera das redes sociais, “influenciadores”, o que foi de gente se desculpando e começando o texto com aquela frase batida: “Quem me conhece sabe!” No final das contas é melhor nem conhecer nem saber! Custava nada dar um google para saber se o que vai vomitar nas redes sociais é legal ou não, nem a esse trabalho a criatura se dá. E se eu soubesse dessa lei quando uma antiga empregadora chegou para mim, com ar moralista e disse, que eu só estava ainda trabalhando com ela por que eu era um bom professor, mas que sabia que eu era gay, aaaaaaaaaaaaaa se eu soubesse da lei. Pena que já prescreveu.

Vamos ao nosso texto, enfim!  

Se há uma instituição que conseguiu superar a fé cega das religiões medievais em termos de dogma impune, essa instituição atende pelo nome de Neoliberalismo. Vendido aos incautos da Faria Lima como a 'única alternativa racional' para a gestão do mundo pós-Guerra Fria, o evangelho do livre mercado autorregulável tornou-se a maior fraude teórica e prática do século XXI. A promessa sempre foi reluzente: desregulamente tudo, privatize até o ar que se respira, destrua os direitos trabalhistas e o 'efeito gotejamento' (o mítico trickle-down economics, ou teoria do gotejamento) fará com que a riqueza acumulada no topo transborde milagrosamente para os pratos dos miseráveis no fundo da pirâmide. Aos ratos as migalhas. As teorias econômicas do tempo da ditadura no Brasil defendiam aumentar o bolo para depois repartir. A questão subentendida e sentida sempre foi, portanto, dividir o bolo para quem Pedro Bó?

Pois bem, meu caro leitor do Ensaios para o Apocalipse: o bolo assou, cresceu, foi devorado pela oligarquia financeira e ao povo não sobraram sequer as migalhas — apenas a conta do gás e a fatura do cartão a juros de 400% ao ano. O relatório recente do World Inequality Lab (2024/2025) e dados consolidados da Oxfam Brasil escancaram a anatomia desse abismo: no Brasil, o 1% mais rico detém quase metade de toda a riqueza nacional (48,9%), enquanto a metade mais pobre da população precisa se cotizar para partilhar escassos 3% do patrimônio do país. Estamos falando, portanto, do verdadeiro Bolsa Família, histórico, radical, excludente e cruel que nos significa enquanto nação. Enquanto a classe média se indigna com os programas sociais quase metade de todo o bolo das riquezas vai para a elite parasitária deste país. ONDE ESTÁ A NOSSA INDIGNAÇÃO ENTÃO?

Mas a fraude neoliberal não é um mero erro de cálculo; é um projeto geopolítico deliberado de dominação. E não deixa de ser também uma ideologia. No xadrez do capitalismo globalizado, ao Brasil sempre foi reservado um papel muito bem delimitado pelas potências centrais: o de colônia extrativista de baixa tecnologia, o 'Fazendão do Mundo'. Modelo bem parecido com o que era o Egito para o Império Romano – sim, gostamos de exagerar um pouco, carregar nas tintas. A receita prescrita pelo Consenso de Washington nos anos 1990 — e reeditada com requintes de crueldade pelas oligarquias locais — exige a desindustrialização precoce da nossa economia. Exportamos soja in natura, minério de ferro bruto, petróleo sem refino, além do molho, o “brazilian way of life” claro para, em seguida, importar derivados de alto valor agregado, chips, fertilizantes e medicamentos a preços de ouro.

Essa dinâmica não é fruto do acaso. Trata-se de um modelo totalitário e profundamente ideológico que se recusa a produzir riqueza real — entendida como soberania tecnológica, infraestrutura, saúde pública e educação de excelência —, dedicando-se exclusivamente a parasitar o orçamento público para concentrar capital nas mãos de rentistas, especuladores e banqueiros. É dentro desse contexto de liquidação da pátria que surgiu o programa econômico da candidatura bolsonarista à Presidência da República nas eleições de 2026.

II. O Plano 'Tesouraço' e os Quatro Cavaleiros do Neoliberalismo

Digamos que estivéssemos em uma distopia, e que fosse fácil ignorar tudo o que representava o bolsonarismo no Brasil. Falando de forma direta, se possível fosse desconsiderar xenofobia, machismo, homofobia, anticientificismo, autoritarismo, apologia às armas, negacionismo, apologia a ditadura, grosseria ufa, em todas as falas e etc. E digamos que fossemos nos centrar “apenas” nas grandes incoerências do que era propagado pelo “plano de governo econômico” do bolsonarismo para o Brasil, para o governo de 2027 à 2030 teríamos que pensar com bastante objetividade que, ao menos, a coordenadora da área econômica da campanha foi extremamente clara. E o que foi espantoso, pois não é comum por parte dos neoliberais declarar todas as suas pautas de forma aberta. Vamos lembrar que tempos atrás o país caiu na armadilha da caça aos marajás e meses depois viu toda a poupança confiscada pelo governo.  

Com a ostentação típica de quem ignora a dor alheia, a campanha bolsonarista batizou sua cartilha de governo de 'Para o Brasil Vencer o Atraso', tendo como carro-chefe a política apelidada publicamente de 'Tesouraço'. O objetivo declarado? Um ajuste fiscal violento e a retomada irrestrita da onda privatista. Se na literatura bíblica os quatro cavaleiros anunciam o fim dos tempos, no cenário político brasileiro as propostas bolsonaristas encarnaram com precisão delirante os Quatro Cavaleiros do Apocalipse Neoliberal. A gente se deu até ao luxo de produzir uma tabela. Estamos insuportáveis!

Cavaleiro Neoliberal

Diretriz do Plano Bolsonarista

Impacto Concreto no País

1. A Fome

(Austeridade Canibal)

O 'Tesouraço' de mais ou menos R$ 300 bilhões (1,5% do PIB), desvinculação de Saúde/Educação e congelamento do mínimo.

Recessão profunda, destruição do SUS, sucateamento de universidades e colapso do poder de compra.

2. A Peste

(Precarização & 6x1)

Defesa da escala exaustiva 6x1, 'pejotização' irrestrita e ataque à representação sindical.

Escravidão algorítmica, epidemia de burnout, informalidade sem proteção social e adoecimento da classe trabalhadora.

3. A Guerra

(Expropriação do Patrimônio)

Privatização total de estatais estratégicas (Petrobras, Caixa, Eletrobrás) e abertura irrestrita ao capital estrangeiro.

Perda da soberania energética, apagões frequentes, disparada de tarifas e reprimarização como 'Fazendão'. E olhe que ainda nem falamos das Terras Raras.

4. A Morte

(O Estado Repressivo)

Corte de 10 ministérios, troca de servidores por IA e redução da maioridade penal para 14 anos.

Estado Mínimo para os direitos humanos e Estado Máximo penal para encarcerar a miséria gerada pelo próprio ajuste.

 

1. O Cavaleiro da Fome: Austeridade Canibal e o 'Tesouraço' de R$ 300 Bilhões

O primeiro cavaleiro atende pelo dogma do equilíbrio fiscal a qualquer custo humano. Coordenado pela economista Daniella Marques, o plano do clã Bolsonaro propunha um corte imediato de R$ 300 bilhões nas despesas públicas federais — o equivalente a 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Sob a desculpa de conter a dívida pública, a cartilha prevê a desvinculação constitucional dos gastos com Saúde e Educação da inflação, além da desindexação das aposentadorias e do Salário Mínimo.

Trata-se de uma verdadeira guilhotina orçamentária. Conforme alerta a economista Denise Gentil, professora do Instituto de Economia da UFRJ, a lógica de promover um garrote fiscal dessa magnitude ignora a dinâmica elementar do multiplicador dos gastos públicos: ao retirar R$ 300 bilhões do orçamento do Estado, retira-se entre R$ 450 bilhões e R$ 500 bilhões de demanda agregada da economia brasileira. O resultado direto não é o crescimento prometido de 4%, mas a imediata recessão econômica, a queda da arrecadação e o estrangulamento do consumo das famílias. Se o salário mínimo não aumentar de valor, o poder de compra das famílias cai.

Em termos práticos, desvincular o piso da Saúde e da Educação significa inviabilizar o atendimento do SUS, paralisar cirurgias eletivas, cortar compras de medicamentos de alto custo e sucatear as Universidades Federais. É a gestão da escassez fabricada para garantir que o bolo do orçamento continue alimentando o pagamento dos juros da dívida pública aos detentores de títulos dos menininhos de sapatênis da Faria Lima. Incrível que mesmo ricos são possuidores de um mal gosto constrangedor.

2. O Cavaleiro da Peste: Precarização, Escravidão Algorítmica e a Escala 6x1

O segundo cavaleiro cavalga sobre o lombo da classe trabalhadora brasileira, fantasiando a miséria com o figurino do “empreendedorismo de si mesmo” – a uberização da nossa economia, não se preocupem, pois, ainda babaremos de raiva sobre a economia da uberização que está destruindo a nossa juventude. Temos um medo imenso por eles, dificilmente se aposentarão. Mas sigamos, pois o programa econômico do bolsonarismo reitera a oposição ferrenha a qualquer avanço nos direitos do trabalho, posicionando-se de forma explícita contra o fim da exaustiva escala 6x1 (seis dias de trabalho para um de descanso).

Enquanto países desenvolvidos discutem a redução da jornada sem diminuição salarial e a semana de quatro dias para aumentar a produtividade e a saúde mental, o neoliberalismo bolsonarista insiste em defender o esgotamento físico da juventude periférica. A apologia à 'pejotização' e ao trabalho por aplicativos — a chamada uberização, outra vez ela — é vendida como “liberdade para empreender”. No entanto, dados da PNAD Contínua do IBGE demonstram a realidade nua e crua: a informalidade já atinge mais de 38% da população ocupada (cerca de 39 milhões de brasileiros), submetida a jornadas de 12 horas diárias sem férias, sem 13º salário, sem descanso semanal remunerado e sem cobertura do INSS em caso de acidente de trabalho, afora como já falamos da desesperança de uma seguridade social.

A peste neoliberal adoece o corpo social. Ela substitui a solidariedade de classe pelo isolamento competitivo, onde o trabalhador acorda às 5h da manhã para pedalar ou dirigir sob o ditame de um algoritmo opaco, acreditando na miragem meritocrática de que seu fracasso financeiro é culpa de sua própria falta de “mindset” e olhe que até em igrejas essa apologia é desvendada e incensada de forma perversa.

3. O Cavaleiro da Guerra: O 'Fazendão' Extrativista e a Entrega da Soberania

O terceiro cavaleiro traz no alforje o martelo dos leilões de privatização. Chamado no plano de governo de “retomada das desestatizações”, a proposta do Bolsonarismo mirava à entrega do que resta do patrimônio público nacional: a Petrobras, a Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil e o setor elétrico residual.

A experiência trágica da privatização da Eletrobrás serve como aviso pedagógico de onde essa política nos conduz. A promessa de redução nas tarifas de energia transformou-se em aumentos reais acima da inflação e no colapso na qualidade do serviço — culminando em apagões recorrentes nas maiores metrópoles do país, como São Paulo. Vender empresas estratégicas de energia e combustível significa entregar o controle sobre os custos de produção da indústria e o preço dos alimentos ao apetite voraz de fundos de investimento estrangeiros. É entregar o patrimônio nacional para a iniciativa privada.

Ao mesmo tempo, essa política consolida o Brasil na divisão internacional do trabalho como um mero 'Fazendão' agroexportador. Enquanto o agronegócio de monocultura desfruta de isenções fiscais bilionárias garantidas pela Lei Kandir e do crédito subsidiado do Plano Safra, a mesa do trabalhador brasileiro sofre com a inflação dos alimentos básicos (arroz, feijão, leite e carne) precificados em dólar para abastecer o mercado externo.

4. O Cavaleiro da Morte: O Estado Penal e a Encarceramento da Miséria

Aqui desnudamos a maior mentira do catecismo neoliberal: o mito do “Estado Mínimo”. O neoliberalismo jamais propôs a redução do Estado; ele propõe a transferência de suas funções. O Estado deve ser Mínimo para a saúde, para a educação, para a ciência e para o bem-estar social, mas deve ser Máximo, hipertrofiado e implacável no uso de seu aparelho policial e penal.

O programa do PL explicita essa simbiose ao propor a redução de pelo menos 10 ministérios, o corte de cargos públicos e a “substituição de servidores por inteligência artificial”, ao mesmo tempo em que defende o endurecimento penal, a redução da maioridade penal para 14 anos e o encarceramento em massa. Como conter a revolta social, a fome e o desespero gerados por um “Tesouraço” de R$ 300 bilhões? A resposta do candidato é a militarização da vida, a repressão nas periferias e o inchaço do sistema prisional.

É a engenharia perfeita da morte: corta-se a assistência social, o emprego formal e a escola pública de qualidade, e entrega-se em substituição a viatura policial, o presídio e o cacetete. É o autoritarismo como fiador indispensável do ajuste fiscal. Estado mínimo para os programas sociais e atividades do próprio estado e Estado Máximo para a iniciativa estrangeira, privada e especulativa.

III. Réquiem para uma Nação ou a Reconstrução da Soberania?

A análise detalhada das propostas econômicas e sociais de Flávio Bolsonaro revelou que o verdadeiro perigo que ronda o Brasil não é a ameaça fantasma do “comunismo”, mas sim a conclusão da obra da dependência colonial sob a roupagem da modernidade digital. Ainda bem que provisoriamente ganhamos!

Um país com as dimensões territoriais, a riqueza mineral, a biodiversidade e a população do Brasil, não pode se resignar ao papel de colônia primário-exportadora gerida por um Estado policial a serviço da Faria Lima. O neoliberalismo em sua versão bolsonarista não oferece um projeto de nação; oferece um plano de liquidação judicial de bens.

Como defensores de um pensamento crítico, profético e sem ilusões, cabe ao Ensaios para o Apocalipse denunciar as engrenagens dessa máquina de moer gente. A alternativa ao colapso não virá da aceitação passiva dos mantras do mercado livre, mas da coragem de reatar com o investimento público soberano, com a reindustrialização sustentável, com a garantia irrestrita dos direitos do trabalho e com a reconstrução da dignidade humana. Antes que a última trombeta soe, é preciso ter a audácia de desarmar os cavaleiros do atraso. E sim, esse texto foi escrito após a vitória de Lula, mas foi posto no tempo presente, pois somos conscientes de que mesmo enfraquecida a cadela do fascismo sempre nos rodeia. E é importante demais que a nossa juventude sempre aprenda com a nossa diva Maria da Conceição Tavares.

“Só faz de conta que a política não interessa… quem manda, meu bem”

IV. Fontes, Dados e Referências Jornalísticas

Para garantir a máxima transparência e o rigor factual exigido pelo nosso blog, consolidamos abaixo as principais fontes, estudos econômicos e reportagens consultadas para a elaboração deste ensaio, por que um Apocalipse que se preze tem que ser bem visto aos olhos de todos:

Fonte / Veículo

Tema / Dado Pesquisado

Link / Referência de Acesso

TSE / Campanha 2026

Plano de Governo 'Para o Brasil Vencer o Atraso' (Flávio Bolsonaro)

tse.jus.br / flaviobolsonaro.com.br/plano-de-governo

Forbes Brasil

Análise do 'Tesouraço' e propostas fiscais da candidatura do PL

forbes.com.br/forbes-money/2026/10/tesouraco-flavio-bolsonaro

Brasil de Fato / Unicamp

Entrevista com Profª Marilane Teixeira sobre desvinculação de Saúde/Educação

brasildefato.com.br/2026/10/09/plano-economico-flavio-bolsonaro

SP Bancários / UFRJ

Alerta da economista Denise Gentil sobre o impacto de R$ 300 bilhões em cortes

spbancarios.com.br/10/2026/economista-ufrj-alerta-plano-flavio

Agência Brasil (EBC)

Detalhamento das medidas de enxugamento do Estado e endurecimento penal

agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2026-09/flavio-bolsonaro

Oxfam Brasil / WID

Relatório de Desigualdade Global (1% mais rico e concentração de renda no Brasil)

oxfam.org.br / wir2024.wid.world

 

— Uma humilde trombeta do Apocalipse

Prof. Daniel Marinho

Ensaios para o Apocalipse | Editorial #02

 


terça-feira, 27 de outubro de 2026

NOSSA GOTA DE FEL: O Papel Político da Escola

 



EIXO TEMÁTICO: POLÍTICA, EDUCAÇÃO & MODERNIDADE

NOSSA GOTA DE FEL
O Papel Político da Escola

Como a escola brasileira perdeu o monopólio da curadoria do conhecimento para o algoritmo das redes sociais e o que resta do nosso ofício

Por Daniel Marinho • Professor há 27 anos • Tempo de Leitura: ~8 min • Ensaios para o Apocalipse

 

“É preciso estar atento e forte!”
— Caetano Veloso e Gilberto Gil

 

I. O Parto a Fórceps e os Dez Anos de Sombra

Segundo turno das eleições presidenciais no Brasil, e a sensação era a das dores de um parto a fórceps. Dores, lamentações e ansiedade — muita ansiedade. Quanto às lamentações, a principal delas certamente girava em torno do nosso diagnóstico: qual teria sido o erro? Onde deixamos as arestas livres para o crescimento assustador da extrema-direita?

Para deixar o nosso gosto de fel ainda mais intragável, estamos lamentando esse avanço, no mínimo, desde o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff em 2016. Portanto, camaradas, atenção: são, no mínimo, dez anos em que a cadela do fascismo ganha forma, força e fé na nossa sociedade. O medo que se avizinhava — e que continua terrivelmente vivo — é a mistura ordinária entre as intenções entreguistas neoliberais, o milicianismo como produto de exportação, a raiva babenta comum ao eugenismo fascista e as promessas de prosperidade e hegemonia do neopentecostalismo. Valei-nos, Nossa Senhora Aparecida!

Sim, mesmo com a vitória eleitoral de Lula, é agora que precisamos estar atentos e fortes. O Poder Legislativo permanece sob o controle dos conservadores. Portanto, as frentes de resistência devem ser múltiplas, e organizadas devem ser as manifestações do povo em todos os tipos de praças públicas.

II. O Drama Vexatório da Sala de Aula

Permitam-me falar um pouco a partir do meu chão: o que é ser professor nos dias de hoje. Já se vão vinte e sete anos nessa labuta diária do magistério. Contudo, ao ouvir muitos dos camaradas professores, percebo um consenso doloroso: a geração que estamos educando destaca-se por dificuldades que sempre existiram, mas que agora parecem ter se acentuado de forma dramática. Falta de atenção crônica, violência latente, desrespeito explícito aos docentes e, permeando tudo isso, a omnipresença avassaladora das redes sociais.

O nó górdio da nossa época está no 'trabalho do algoritmo', que operou a desvinculação do monopólio do conhecimento da sala de aula para entregá-lo às plataformas digitais — e, com ele, a uma quantidade gigantesca e incontrolável de fake news.

Hoje, a escola brasileira vive o seu drama mais vexatório. Ela continua exigindo que adolescentes silenciem seus corpos para ouvir preleções formais sobre a estrutura celular das briófitas enquanto, no bolso do uniforme, o algoritmo do TikTok entrega uma cosmologia inteira — rápida, histérica, fascinante — a cada deslizar de polegar. E tal qual um labirinto essa cosmologia também entrega em profusão, racismos, misoginia, xenofobia e uma fermentação de ódios revestidos de cortinas de fumaça que prometem resolver problemas que na verdade não existem. Moinhos de vento confundidos com gigantes desaforados diria Cervantes. Podemos até dizer que muitos professores conseguem e usam com desenvoltura ferramentas digitais para dinamizar suas aulas, mas essa não é a questão central.

“Uma mentira contada mil vezes torna-se uma verdade.”

— Propaganda de um regime infame

 

A nossa agonia presente é que estamos experimentando na pele a máxima do regime autoritário. Na verdade, a sensação atual é ainda mais desesperadora: a mentira sequer precisa ser dita mil vezes ou duas vezes; basta um disparo em massa no WhatsApp para ser assimilada como dogma. E, contra tudo isso, estamos nós, os professores.

III. O Tapa de Pelica e o Espírito Político da Docência

A agonia mais aguda que senti, logo ao término do primeiro turno, foi receber mensagens de ex-alunos instigando-me com a exclamação: 'Toma, porra!'. A mensagem vinha acompanhada da postagem sobre a vitória de um deputado cuja pauta fundamental nas redes sociais era, dentre várias atrocidades, o discurso de que 'professores são vagabundos'.

Chorei. Um choro contido, entremeado por uma parcela inevitável de ódio — humano, demasiadamente humano. Mas, como tudo o que é humano, nós decidimos o que fazer com a dor e com a informação que nos atiram. Decidi estar atento e forte.

Decidi não esquecer que, absolutamente sim, a totalidade do ofício do magistério possui um espírito político intrínseco. Político é quando ensinamos que a política é a extensão natural da ética, resgatando Aristóteles. Político é quando repetimos centenas de vezes que a história do Brasil é a história da implantação violenta do capitalismo predatório, assentada na manjedoura da escravidão como argamassa fundacional, é política no momento em que explica a história fundiária desse país e etc etc etc etc.

Laicidade, cientificidade, inclusão, diversidade e DEMOCRACIA! Político é quando lembramos que a escola moderna se sustenta sobre pilares inegociáveis:

As postagens direcionadas a mim machucaram? Óbvio. Mas serviram como um tapa de pelica em um rosto já cansado. Em meio ao contexto em que vivemos, será necessário sentir, pensar, fazer e criar novas formas de resistência pelo simples fato de sermos educadores.

“Estamos lutando pela hegemonia? Imagine-se! Estamos lutando apenas para não ficar malucos. Para não dizer besteiras demais. Para não contribuir com a nossa gota de fel para um veneno alheio. Tomemos a nossa cicuta com tranquilidade, meus filhos.”

— Profa. Maria da Conceição Tavares

 

Decidi voltar a tomar minha cicuta com tranquilidade. Sim: incendiar, envenenar, mas fundamentalmente provocar. Não podemos chegar daqui a quatro anos assistindo, mais uma vez, a uma parte da juventude que ajudamos a formar cultivando um ódio banal contra a classe que os guiou pelos caminhos do saber, nem tampouco enaltecendo figuras políticas que conspiram contra a laicidade, a ciência e a democracia.

A democracia é frágil como uma flor: se não a regarmos diariamente, ela despetala e morre.

IV. O Rubicão e a Curadoria do Caos

Sempre insisto para que meus interlocutores concordem ou discordem de mim. O debate é uma agonia sinuosa que oscila entre a dor da construção coletiva e a indiferença da incredulidade. No entanto, nos últimos tempos, certas linhas deixaram de ser apenas debatidas: foram acintosamente atropeladas. É Júlio César cruzando o Rubicão.

Desde que a extrema-direita passou a ocupar com gana os espaços vagos deixados pela centro-esquerda no Brasil, chorei pela primeira vez. Não de fraqueza ou tristeza pura, mas de profunda raiva. Estamos falando, sim, do lugar político e social da escola.

A escola perdeu o monopólio da curadoria do conhecimento. E, ao perdê-lo sem sequer compreender a natureza da metamorfose em curso, deixou o terreno livre para que a praça pública fosse ocupada por mascates de ilusões e ilusionistas de palanque. Ter que ouvir republicações apaixonadas chamando-nos de vagabundos — vindas de quem jamais pisou numa sala de aula para enfrentar os desafios de ensinar — é uma pílula amarga que a maioria dos professores conhece bem.

Houve quem profetizasse que a democratização do acesso à internet seria a alvorada de um novo Iluminismo. Dizia-se que, ao colocar a biblioteca de Alexandria na palma da mão de cada jovem, a ignorância seria sumariamente erradicada. O que os tecno-otimistas esqueceram de calcular foi a nossa assustadora incapacidade humana de processar a abundância desordenada. E sim meus amigos, no contraponto da tristeza também chorei de emoção com os relatos de tantos outros ótimos ex-alunos que, na festa da madrugada desse dia 25 para 26 disseram-me: obrigado por contribuir para a minha formação!

É aqui que se insere a nossa missão urgente: nós, professores, precisamos assumir o papel de Curadores do Caos. Sem medo do confronto intelectual e político, precisamos nomear as coisas pelo seu devido nome — explicar que fascismo é fascismo —, sob pena de termos que beber doses cada vez mais letais de fel a cada pleito eleitoral.

 

Daniel Marinho
Uma humilde trombeta do Apocalipse.

 

OS VÁRIOS CAVALEIROS DO APOCALIPSE NEOLIBERAL

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